{"id":61817,"date":"2026-07-09T11:06:56","date_gmt":"2026-07-09T14:06:56","guid":{"rendered":"https:\/\/ocanal.com\/noticias\/corporativas\/agressor-midia-e-sociedade-quantas-vezes-a-vitima-morre\/"},"modified":"2026-07-09T11:06:56","modified_gmt":"2026-07-09T14:06:56","slug":"agressor-midia-e-sociedade-quantas-vezes-a-vitima-morre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ocanal.com\/noticias\/corporativas\/agressor-midia-e-sociedade-quantas-vezes-a-vitima-morre\/","title":{"rendered":"Agressor, m\u00eddia e sociedade: quantas vezes a v\u00edtima morre?"},"content":{"rendered":"<p>A cada novo caso de feminic\u00eddio ou agress\u00e3o contra uma mulher, o pa\u00eds parece reviver o mesmo roteiro: choque, indigna\u00e7\u00e3o e uma r\u00e1pida sucess\u00e3o de manchetes que logo cedem espa\u00e7o \u00e0 pr\u00f3xima urg\u00eancia do notici\u00e1rio. O problema \u00e9 que, quando a viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 narrada apenas como um epis\u00f3dio isolado, perde-se a dimens\u00e3o mais importante da quest\u00e3o: ela \u00e9 um fen\u00f4meno estrutural, sustentado por desigualdades hist\u00f3ricas, rela\u00e7\u00f5es de poder e falhas coletivas de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasce apenas da experi\u00eancia cl\u00ednica. Em pesquisa de doutorado em Psicologia, Milena Paula Samuel analisou 3.350 not\u00edcias publicadas entre 2015 e 2023 em cinco grandes jornais brasileiros para compreender como a viol\u00eancia contra mulheres, crian\u00e7as e adolescentes \u00e9 apresentada ao p\u00fablico. O resultado revelou um padr\u00e3o preocupante: a cobertura concentra-se majoritariamente no fato consumado, a agress\u00e3o, a pris\u00e3o ou a morte, enquanto dedica muito menos espa\u00e7o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o, \u00e0 rede de apoio e aos sinais anteriores da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando a not\u00edcia come\u00e7a apenas no momento da trag\u00e9dia, a sociedade \u00e9 levada a acreditar que aquele caso surgiu de forma repentina. Mas a viol\u00eancia dom\u00e9stica raramente come\u00e7a com um crime extremo. Ela costuma ser precedida por controle, humilha\u00e7\u00f5es, isolamento, amea\u00e7as, depend\u00eancia emocional ou econ\u00f4mica e sucessivas viola\u00e7\u00f5es da autonomia da mulher. S\u00e3o sinais que, muitas vezes, permanecem invis\u00edveis porque culturalmente ainda aprendemos a minimizar comportamentos abusivos dentro das rela\u00e7\u00f5es afetivas.<\/p>\n<p>O Brasil possui uma das legisla\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas do mundo no enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica, representada pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2004-2006\/2006\/lei\/l11340.htm\" rel=\"follow\">Lei Maria da Penha<\/a>. Ainda assim, milhares de mulheres continuam encontrando dificuldades para romper o ciclo da viol\u00eancia. Muitas n\u00e3o denunciam por medo, depend\u00eancia financeira, preocupa\u00e7\u00e3o com os filhos ou pela esperan\u00e7a de que o parceiro mude. Outras chegam a procurar ajuda, mas encontram respostas fragmentadas entre sa\u00fade, assist\u00eancia social, seguran\u00e7a p\u00fablica e Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a forma como falamos sobre viol\u00eancia se torna decisiva. A linguagem nunca \u00e9 neutra. Quando uma reportagem enfatiza &quot;crime passional&quot;, &quot;briga de casal&quot; ou &quot;desentendimento amoroso&quot;, desloca o foco da responsabilidade do agressor e suaviza a gravidade do que ocorreu. Quando contextualiza o caso como viol\u00eancia de g\u00eanero, explica os mecanismos de prote\u00e7\u00e3o e informa os canais de ajuda, transforma-se em instrumento de preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Milena Paula Samuel, doutora em Psicologia, a pr\u00e1tica cl\u00ednica evidencia com frequ\u00eancia mulheres altamente escolarizadas, profissionais bem-sucedidas e socialmente independentes perguntando a si mesmas por que permaneceram tanto tempo em rela\u00e7\u00f5es violentas. Essa pergunta revela um equ\u00edvoco coletivo: ainda imaginamos que a viol\u00eancia dom\u00e9stica atinge apenas mulheres vulner\u00e1veis economicamente ou com pouca instru\u00e7\u00e3o. A realidade \u00e9 muito mais complexa. O abuso pode atravessar qualquer classe social, profiss\u00e3o ou n\u00edvel de escolaridade, justamente porque opera tamb\u00e9m por v\u00ednculos afetivos, culpa, medo e desgaste emocional progressivo.<\/p>\n<p>&quot;Precisamos abandonar a ideia de que o enfrentamento da viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 responsabilidade exclusiva da v\u00edtima. Trata-se de uma tarefa social. Escolas, empresas, servi\u00e7os de sa\u00fade, vizinhos, familiares e meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam papel fundamental na identifica\u00e7\u00e3o precoce dos sinais de risco. Quanto mais cedo a viol\u00eancia \u00e9 reconhecida, maiores s\u00e3o as chances de prote\u00e7\u00e3o antes que ela evolua para formas graves ou letais&quot;, afirma Milena.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ampliar o debate sobre os impactos da viol\u00eancia na trajet\u00f3ria profissional das mulheres. Muitas v\u00edtimas faltam ao trabalho, reduzem sua produtividade, abandonam projetos ou interrompem carreiras devido ao sofrimento psicol\u00f3gico e \u00e0s consequ\u00eancias pr\u00e1ticas do abuso. A viol\u00eancia dom\u00e9stica n\u00e3o permanece dentro de casa: ela afeta a economia, a sa\u00fade p\u00fablica e o desenvolvimento social do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Transformar essa realidade exige mais do que indigna\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea. Exige informa\u00e7\u00e3o qualificada, responsabilidade coletiva e uma mudan\u00e7a na maneira como enxergamos os relacionamentos abusivos. Enquanto continuarmos tratando cada caso como uma trag\u00e9dia privada, seguiremos chegando tarde demais. A pergunta que precisamos fazer n\u00e3o \u00e9 apenas por que uma mulher n\u00e3o saiu antes, mas por que a sociedade ainda demora tanto para reconhecer os sinais que antecedem a viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Sobre&nbsp;Milena Paula Samuel<\/strong><\/p>\n<p>Milena Paula Samuel \u00e9 doutora em Psicologia, pesquisadora das narrativas midi\u00e1ticas sobre viol\u00eancia e autora do livro &quot;At\u00e9 que a Morte Nos Separe? Metendo a Colher e Promovendo Sa\u00fade nos Relacionamentos Conjugais&quot;.<\/p>\n<p><img src='https:\/\/api.dino.com.br\/v2\/news\/tr\/333718?partnerId=3197' alt=\"\" style=\"border:0px;width:1px;height:1px;\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada novo caso de feminic\u00eddio ou agress\u00e3o contra uma mulher, o pa\u00eds parece reviver o mesmo roteiro: choque, indigna\u00e7\u00e3o e uma r\u00e1pida sucess\u00e3o de manchetes que logo cedem espa\u00e7o \u00e0 pr\u00f3xima urg\u00eancia do notici\u00e1rio. 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